Durante décadas, as mães das jovens de hoje representaram uma geração que se interpunha entre dois tipos muito distintos de mulheres: as avós, que viveram em uma sociedade ainda mais restritiva, e as netas, que desfrutam de liberdades conquistadas ao longo do tempo. Essas avós, as mães das mães atuais, foram submetidas a um controle comportamental rígido, sustentado pela Igreja, pela sociedade e por suas famílias, que visava manter a "pureza" até o casamento, considerado o maior e muitas vezes único objetivo de suas vidas.
Essa "pureza" exigia a privação de satisfações naturais de uma sexualidade própria da juventude, já que a virgindade e a fidelidade feminina eram vistas como as únicas garantias que um marido tinha de que os filhos de sua esposa eram realmente seus. A justificativa para tal imposição baseava-se na ideia de que o marido deveria sustentar a esposa, que, sem profissão, não teria renda própria.
Além disso, o acesso ao ensino superior era vetado, pois a autonomia feminina não era desejada. As mulheres deviam se dedicar às "prendas domésticas" e, no máximo, a uma iniciação amadora em piano. A "pureza" também exigia que os atrativos físicos femininos fossem ocultados sob várias camadas de roupas, mesmo em climas quentes, limitando o espaço social das jovens até que fossem escolhidas por um pretendente em bailes, onde flertavam e dançavam com rapazes.
As Mães Santificadas e o Controle Social
Setenta anos atrás, as jovens que se casavam eram vistas, após se tornarem mães, como "santas". Esse ideal era reforçado por músicas que contrastavam essas mulheres com as "perdidas", aquelas que violavam os tabus sociais. A música "Coração Materno", de Vicente Celestino, exemplifica essa visão, onde a figura da mãe era central em um teste de amor que, hoje, seria considerado incentivo a crimes hediondos.
Essas mães, sem acesso à educação superior, criavam seus filhos com base nas práticas educativas de seus pais, que incluíam castigos físicos. Era comum o uso da palmatória nas escolas e em casa, onde as mães acreditavam estar educando para o "bem" dos filhos ao aplicar punições físicas. Essa visão punitiva da educação se refletia em canções populares da época, como "Mamãe", de Ângela Maria.
Amélia: Um Símbolo de Submissão
Nos anos 60 e 70, artistas como Roberto Carlos desfrutavam de grande sucesso, mas foi Francisco Alves, com a música "Amélia" de Mário Lago, que eternizou a imagem da mulher submissa. A letra descreve Amélia como a "mulher de verdade", sem vaidade, que suportava dificuldades ao lado do homem sem reclamar.
Essa visão de mulher ressoou em gerações, impondo a ideia de que o sofrimento e a resignação eram virtudes femininas. Muitas mulheres dessa época, privadas de educação e oportunidades, encontraram na música uma forma de expressão e escapismo, cantando canções que expressavam suas esperanças e dores.
Atualmente, questiona-se se as mães ainda cantam em casa, visto que essa prática foi uma forma de resistência e preservação cultural em um contexto de opressão feminina.